“Se eu te entregasse agora uma xícara de café e te dissesse que ela pode conter substâncias tóxicas associadas a danos renais, neurológicos ou até mesmo risco de câncer, você se sentiria seguro em consumi-la?“
A pergunta costuma ser a primeira frase da apresentação de Kenisson Morais Brito em feiras de ciência. Longe de colocar o café sob suspeita, ela serve para chamar atenção para um problema conhecido da cafeicultura: a contaminação dos grãos por fungos durante o armazenamento.
Foi justamente em busca de uma alternativa para esse desafio que o estudante baiano desenvolveu um biofungicida à base de erva-doce.

Como nasceu o fungicida natural para café
A pesquisa que o “tomou de paixão”, segundo Kenisson, nasceu após a mudança de cidade para iniciar o ensino médio em uma escola da rede SESI, em Vitória da Conquista. Ao tomar conhecimento das oportunidades de grupos de pesquisa e iniciação cinetífica, o jovem optou por se juntar aos estudos sobre botânica.
Foram diversos estudos sobre propriedades de plantas medicinais durante o segundo grau. A curiosidade, então, surgiu: se algumas plantas fazem bem à saúde humana, também poderiam fazer bem para a saúde de outras plantas?
É dessa hipótese que nasce o AnisGuard, um biofungicida desenvolvido para ser aplicado no café após a colheita.
Erva-doce virou aliada no combate aos fungos do café
Para buscar seu objeto de pesquisa, o estudante se voltou para a sua própria comunidade. Barra do Choça, no sudoeste baiano, é a capital baiana do café. Reconhecida internacionalmente, a região cultiva grãos 100% arábica de alta qualidade, que abastecem tanto a região quanto redes globais como Mc Donald’s e Starbucks.
Ao relembrar de colheitas prejudicadas por fungos, Kenisson decidiu utilizar os conhecimentos em botânica para buscar plantas com potencial antifúngico. Na fase inicial, no entanto, encontrou um obstáculo: muitas das espécies apontadas em estudos científicos não eram comuns na região ou tinham difícil acesso para pequenos produtores.
Foi então que decidiu inverter a lógica da pesquisa. Em vez de procurar plantas exóticas ou de difícil cultivo, passou a olhar para espécies presentes no cotidiano das famílias da região.
“Dentre a lista de plantas que eu cataloguei, surgiu a erva-doce, porque é uma planta que a gente vê crescendo em qualquer lugar. Cresce no fundo do quintal da avó, é usada como chá, às vezes como tempero. Era uma planta extremamente acessível. A primeira pergunta que eu fiz foi: por que não?“
A escolha não foi por acaso. O estudante partiu da hipótese de que os compostos bioativos responsáveis pela ação antimicrobiana da erva-doce na saúde humana também poderiam ser utilizados para proteger os grãos de café contra fungos.

Biofungicida apresentou resultados promissores
O palpite virou pesquisa, que virou resultado. O AnisGuard, feito do extrato das sementes da erva-doce, reduziu em até 83,8% a carga do fungo Penicillium spp. em grãos armazenados. Além do benefício ambiental, existe também uma vantagem econômica. O custo estimado de produção é de até quatro vezes menor que o dos fungicidas geralmente utilizados na lavoura.
Além da ação fungicida, o estudo também investigou o potencial do extrato como biofertilizante.
Fungos estão entre os principais desafios da cafeicultura
Um dos principais desafios da cafeicultura é o controle de doenças causadas por fungos. Problemas como a ferrugem-do-cafeeiro, a cercosporiose, a antracnose e outros tipos de contaminação durante o armazenamento podem comprometer a produtividade, reduzir a qualidade da bebida e gerar perdas econômicas.
Nesse contexto, iniciativas como a de Kenisson podem impulsionar a realidade dos pequenos e médios produtores, que muitas vezes enfrentam limitações financeiras para investir em tecnologias. O AnisGuard vem sendo testado em fazendas-piloto desde 2024, e representa um exemplo de como a inovação científica pode contribuir para tornar a produção agrícola mais acessível.
Do laboratório ao agronegócio: os próximos passos do AnisGuard
A iniciativa já rendeu premiações dentro e fora do país. Em 2026, o AnisGuard conquistou o 1º lugar na categoria ‘Ciências Agrárias’ da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE) e 4º lugar na categoria ‘Plant Sciences‘ na Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF), considerada a maior feira pré-universitária de ciências e engenharia do mundo.
Para os produtores, acompanhar essas iniciativas e participar de projetos de pesquisa pode representar um investimento de longo prazo. Essa aproximação acelera a validação de soluções que, no futuro, podem tornar a produção mais sustentável e economicamente viável. Kenisson pretende continuar fazendo parte desse processo.
“A minha trajetória de pesquisa definitivamente não acabou, especialmente para o AnisGuard. Quero levar o projeto para a universidade e desenvolver a pesquisa com mais detalhes. Muita gente pensa que, quando uma pesquisa ganha um prêmio, ela está pronta, mas ainda há muito trabalho pela frente. Minha expectativa é descobrir se ela realmente pode chegar ao mercado e às mãos do produtor.“
Conversas da Comunidade
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