Quase um ano após a crise sanitária de gripe aviária que assustou produtores brasileiros e afetou diretamente as exportações do setor, a atenção em torno do assunto se mostra ainda mais necessária devido ao surgimento repentino da patologia em uma granja, algo nunca registrado anteriormente no Brasil. Antes do caso de maio de 2025, o país era classificado internacionalmente como “livre da doença”, já que os casos eram registrados apenas em animais silvestres e em aves de criações de subsistência.
A perda da classificação resultou em impactos diretos na confiança do mercado internacional no produto brasileiro, com parceiros comerciais diminuindo significativamente e outros interrompendo de forma integral a importação do frango e dos ovos do país. Esse comportamento acabou resultando no barateamento dos produtos, que precisaram ser escoados para o mercado interno, já que o consumo não oferece risco ao público quando bem preparado.
Resultados na Bahia

Apesar dos transtornos no cenário nacional, a avicultura na Bahia reagiu bem em 2025, sem grandes impactos econômicos e com um crescimento de 4,61% no número de abates para comércio e exportação nos três primeiros trimestres do ano, se mantendo como o maior produtor de carne de frango do nordeste e o nono no ranking nacional. Na produção de ovos a Bahia também se destacou, crescendo 16,3% no ano passado.
Já o Brasil apresentou um recuo de 0,7% nas exportações, mas, ainda assim, o setor cresceu 7% em comparação a 2024, com o redirecionamento para a demanda interna sendo um dos principais fatores do crescimento.

De acordo com a médica veterinária Dra. Lia Fernandes, esse resultado positivo deve-se ao preparo das granjas para lidar com situações de emergência. “Canadá e Estados Unidos vêm enfrentando há anos focos de influenza aviária. É importante a gente ressaltar isso porque muitas vezes a gente ouve críticas, mas era impossível impedir que isso acontecesse. As aves migratórias vão chegando, vão passando pelas rotas e chegam aqui em algum momento. A questão toda é como que a gente vai lidar com essa chegada do vírus”, afirmou a especialista.
Sintomas da doença
Apesar de a Bahia não ter registrado casos neste último surto de influenza aviária, os produtores devem ficar atentos aos sinais que podem indicar o adoecimento das aves, como:
- Morte repentina em grande escala;
- Espirros;
- Corrimento nasal;
- Dificuldade respiratória;
- Falta de coordenação motora e/ou torção no pescoço;
- Cristas inchadas;
- Queda na postura de ovos;
- Diarreia.
Ainda segundo a Dra. Fernandes, a detecção desses sinais é crucial para a contenção do vírus. “É muito importante que o produtor fique atento à sua criação e, ao se deparar com uma situação como essa, busque o serviço veterinário oficial do seu estado”. Na Bahia, o órgão responsável por atuar em caso de detecção de gripe aviária é a Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB), que pode ser contatada pelo site oficial do órgão na aba de “Notificação de Doenças e Pragas” ou por telefone, através do número 0800 284 0011.

Vacinação e protocolos internacionais
O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) não adota a vacinação dos animais devido a barreiras comerciais que podem diminuir a competitividade e a presença do Brasil no cenário internacional, já que muitos países que compram a carne de frango brasileira impõem restrições a nações que utilizam a vacinação, devido a dificuldades técnicas em diferenciar animais vacinados dos que foram infectados pelo vírus.
Em vez disso, o ministério utiliza protocolos de prevenção, vigilância ativa e a eliminação imediata de focos. Uma das principais medidas adotadas é o isolamento das granjas, evitando o contato entre as aves domésticas e as silvestres, principalmente as migratórias, que são as hospedeiras naturais do vírus da influenza. Esses protocolos mantêm o Brasil como um país livre da doença, mesmo após o caso registrado no ano passado.

O mês de maio e a migração das aves silvestres
Antes do registro de 2025, o último caso de gripe aviária foi detectado também em maio de 2023, o que acendeu um alerta nos especialistas, que logo associaram o surgimento das infecções em animais domésticos ao período migratório das aves silvestres que vêm de outros continentes e acabam passando pelo Brasil.
“Essa intersecção entre as rotas migratórias e a chegada dessas aves ao nosso território pode introduzir diferentes subtipos do vírus da influenza aviária, contribuindo para a disseminação do vírus no ambiente”, disse Daniela Santos, especialista em inspeção de produtos de origem animal e supervisora técnica do Senar Bahia.
Segundo a médica veterinária, os produtores devem se atentar ainda mais nesse período do ano em isolar os animais domésticos de aves silvestres, em especial as aquáticas, que vivem no ambiente natural do vírus.
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