Fazendas, sítios, cabeças de gado, caprinos, ovinos, participações em empresas agropecuárias e até arrobas de cacau. O meio rural aparece de diferentes formas nas declarações de patrimônio de deputados estaduais eleitos na Bahia em 2026. Quatro em cada 10 representantes que ocuparão uma cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) a partir de 2027 declaram pelo menos um bem relacionado ao campo, mesmo que não tenham sua ocupação principal ligada ao setor agropecuário.
O levantamento realizado pelo iAgro Notícias, a partir das declarações apresentadas à Justiça Eleitoral, identificou que 24 dos 63 deputados estaduais eleitos na Bahia possuem pelo menos um bem, ativo ou participação explicitamente associado ao meio rural ou à atividade agropecuária. O grupo representa cerca de 38% da nova composição da ALBA. A Justiça Eleitoral definiu a relação dos 63 eleitos após a totalização das eleições de 4 de outubro e definição do quociente eleitoral.
No entanto, há um ponto que precisa ser destacado: ter uma fazenda, um rebanho, ou participação em uma empresa agropecuária não significa, necessariamente, exercer atividade rural, nem representar politicamente o setor. O levantamento mostra exclusivamente o que foi informado pelos próprios candidatos em suas declarações de bens ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Agro aparece mais no patrimônio do que na ocupação
Entre os 24 nomes identificados, apenas Elinaldo (União Brasil) declarou como ocupação a categoria “produtor agropecuário”, enquanto Carlinhos Sobral (MDB) informou ser “pecuarista”. Ricardo Rodrigues (PSD) declarou a profissão de “agricultor” e Tiago Correia (PSDB), a de “veterinário”.
Nos demais casos, o vínculo identificado pelo levantamento aparece no patrimônio declarado. Elinaldo, por exemplo, informou possuir o “Sítio Itajaí” e parte da “Fazenda Lamarãozinho”, ambos em Lamarão do Passé. Dr. Thiago Gilleno (Republicanos), que declarou como ocupação a medicina, registrou entre seus bens uma “propriedade rural avaliada em R$ 100 mil”.
Gado, cacau e participação em negócios rurais
Há também casos em que o vínculo vai além da posse de terra. Entre as declarações analisadas, uma das maiores cifras diretamente associadas à produção animal aparece no patrimônio do veterinário Tiago Correia. O deputado eleito informou R$ 1,94 milhão em bovinos. Já Juvenilson Passos (PT) declarou bovinos, ovinos e caprinos avaliados conjuntamente em R$ 814,1 mil à Justiça Eleitoral.
No baixo sul da Bahia, o cacau aparece entre os bens de Léo de Neco (Avante). O ex-prefeito de Gandu e agora deputado eleito declarou 500 arrobas de cacau, registradas no patrimônio por R$ 115 mil.
Outros parlamentares aparecem conectados ao setor por participações empresariais: Luciano Simões Filho (União Brasil) declarou R$ 129,6 mil em quotas da “Belo Monte Agropecuária Ltda.”, enquanto o pecuarista Carlinhos Sobral informou possuir 9% das quotas da “Cafula Agropecuária Ltda.”, avaliadas em R$ 62,3 mil.
A declaração de Neusa Cadore (PT) traz outra forma de ligação com cadeias produtivas. Entre os bens estão capital social na Cooperativa Regional de Alimentos Bahia, participação em cooperativa de crédito do Sertão Baiano e uma Cédula de Produto Rural Financeira (CPR-F) emitida pela Sociedade Cooperativa Regional de Alimentos Frigbahia.
Veja os 24 deputados eleitos que declararam bens ligados ao meio rural
O iAgro Notícias considerou bens cuja própria descrição apresentada à Justiça Eleitoral permite identificar relação explícita com propriedades rurais, produção agropecuária, animais, produtos agrícolas, empresas agropecuárias e/ou instrumentos diretamente relacionados à atividade rural.
- Ângelo Almeida (PT): informou a Fazenda São Domingos, em Morpará, avaliada em R$ 150 mil.
- Carlinhos Sobral (MDB): declarou ser pecuarista e possuir 99% das quotas da Cafula Agropecuária Ltda.
- Dr. Thiago Gilleno (Republicanos): declarou uma propriedade rural avaliada em R$ 100 mil.
- Eduardo Alencar (PSD): informou a Fazenda Nova Aratichum, avaliada em R$ 217,4 mil.
- Eduardo Salles (PV): informou o Sítio Recanto Chapada, em Mucugê, avaliado em R$ 185 mil.
- Elinaldo (União Brasil): declarou ocupação de produtor agropecuário, além do Sítio Itajaí e de uma porção da Fazenda Lamarãozinho, em Lamarão do Passé.
- Euclides Fernandes (PT): declarou a Fazenda Boa Esperança, com 25 hectares, em Jequié, avaliada em R$ 200 mil.
- Fabrício (PCdoB): declarou um imóvel descrito na relação de bens como “Haras”, avaliado em R$ 240 mil. No cadastro, o item está classificado como casa.
- Jordavio Ramos (PSDB): declarou uma área rural de R$ 105 mil e dois bens descritos como sítios.
- Juvenilson Passos (PT): informou bovinos, ovinos e caprinos avaliados em R$ 814,1 mil.
- Léo de Neco (Avante): declarou 500 arrobas de cacau, registradas por R$ 115 mil.
- Luciano Pinheiro (PDT): informou um sítio com 20 tarefas em Euclides da Cunha, avaliado em R$ 200 mil.
- Luciano Simões Filho (União Brasil): declarou R$ 129,6 mil em quotas da Belo Monte Agropecuária Ltda.
- Ludmilla Fiscina (PSD): declarou a Fazenda Salgadinho, recebida por doação e registrada pelo valor de R$ 60 mil.
- Marcinho Oliveira (PDT): declarou a Fazenda Pedra D’Água, em Monte Santo, registrada por cerca de R$ 1,17 milhão.
- Marquinho Viana (PV): declarou a Fazenda Riacho, em Barra da Estiva, a Fazenda Praieiro, em Ituaçu, e o Sítio Pingo D’Água, também em Barra da Estiva.
- Neusa Cadore (PT): informou capital em cooperativas e uma CPR-F emitida pela Sociedade Cooperativa Regional de Alimentos Frigbahia.
- Pedro Tavares (União Brasil): declarou uma área rural às margens do Lago de Pedra do Cavalo, em Cabaceiras do Paraguaçu, denominada Sítio Canto da Ciriema.
- Ricardo Rodrigues (PSD): declarou ocupação de agricultor e informou, entre os bens, a Fazenda JR, em Lapão, além de veículos descritos como caminhão/trator.
- Roberto Carlos (PV): declarou o Sítio Pontilhado, na comunidade de mesmo nome, em Juazeiro, por R$ 260 mil; também informou consórcio de tratores.
- Rosemberg (PT): informou parte da Fazenda Viçosa, em Uruçuca, com 111 hectares, registrada por R$ 270 mil.
- Sandro Regis (União Brasil): declarou, entre outros bens rurais, imóvel descrito como fazenda/sítio/chácara, por R$ 1,008 milhão, além da Fazenda Belo Campo II, em Ibirataia.
- Silva Neto (Avante): informou uma propriedade rural de aproximadamente 1.500 tarefas no município de Araci.
- Tiago Correia (PSDB): veterinário, declarou bovinos avaliados em R$ 1,94 milhão.
Patrimônio rural não significa representação política do agro
O levantamento NÃO classifica os 24 deputados como integrantes de uma possível “bancada do agro”, nem indica como eles deverão votar em projetos relacionados ao setor durante a próxima legislatura. As declarações patrimoniais mostram vínculos econômicos ou patrimoniais relacionados ao meio rural, mas não permitem concluir se o parlamentar produz comercialmente, obtém renda daquele patrimônio ou adota determinada posição política sobre temas do agro.
Essa diferença também explica por que alguns bens ficaram fora do levantamento. Terrenos sem indicação de uso rural, consórcios não-contemplados de máquinas e veículos ou descrições genéricas de áreas de terra, por exemplo, não foram considerados quando a própria declaração não permitia estabelecer de forma objetiva uma relação com o meio rural ou a produção agropecuária.
Os valores apresentados também correspondem ao que foi declarado pelos candidatos à Justiça Eleitoral e não representam, necessariamente, o valor atual de mercado dos imóveis, animais, participações ou demais ativos.
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