Qualidade e exclusividade andam lado a lado: o Brasil é o maior produtor e exportador de guaraná no mundo. Embora a planta seja nativa da região amazônica, a Bahia não apenas produz guaraná, como lidera a produção nacional nos últimos anos, superando o Amazonas.
Essa fruta, cujas sementes são ricas em cafeína, é muito mais do que um ingrediente para refrigerantes. Presente nos lares brasileiros, o guaraná é um ativo valioso para indústrias farmacêuticas, de cosméticos e de suplementos alimentares.
O impacto do guaraná na economia do Baixo Sul da Bahia
O cultivo do guaraná se tornou um pilar econômico do Baixo Sul da Bahia. O que antes era uma aposta de diversificação agrícola transformou-se em fonte de renda para produtores rurais em cidades como Ituberá, Nilo Peçanha e Taperoá — conhecida como um dos maiores polos de produção de guaraná do planeta.
Esta posição vem sido construída há anos. Pela memória do produtor Agostinho Farias, de Taperoá, o guaraná desembarcou na Bahia à pelo menos 30 anos. “Foi um grupo de japoneses que morava em Belém do Pará e vieram para Taperoá. Na época, um banco se instalou aqui na região e começou a fazer projetos de incentivo ao plantio de guaraná e cupuaçu, por isso muita gente se interessou”.
Juntos, Bahia e Amazonas dominam a safra nacional, mas a balança pende cada vez mais para o Nordeste. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que a Bahia foi responsável por 63,2% do guaraná colhido no país em 2024. O cultivo favorável ocorre graças ao aproveitamento das condições climáticas do estado.
Agostinho plantou sua primeira muda em 1990. Hoje são quatro hectares e meio dedicados ao fruto, que é a fonte de renda principal do produtor e sua família: “Tenho cacau e cravo, mas é pouco. A dificuldade do guaraná não é pouca, mas é ele que me sustenta aqui, sempre foi.”



Mudanças climáticas e os desafios da produção no Amazonas
A mudança na liderança do setor é uma resposta às transformações ambientais globais. A cultura dos guaranazeiros no Amazonas têm enfrentado instabilidades climáticas nos últimos anos, o que afetou as safras da região Norte.
O “pé de guaraná” é sensível ao clima, especialmente durante o seu período de floração, no segundo semestre. Secas prolongadas ou chuvas torrenciais fora de época podem danificar a frutificação.
Litoral sul baiano oferece boas condições para guaraná
Em contrapartida, o litoral sul da Bahia ofereceu, especialmente no ciclo de 2025/2026, uma estabilidade meteorológica que favoreceu o desenvolvimento da fruticultura.
“Aqui no Baixo sul ele se adpata muito bem. Isso porque guaraná gosta de clima úmido e quente, e as estações aqui oferecem essas duas condições”, afirma o produtor
Dessa forma, o guaraná movimentou principalmente dois mercados:
- Setor de bebidas: o extrato de guaraná baiano alimenta marcas nacionais e internacionais de refrescos e refrigerantes;
- Indústria de bem-estar: a busca por energéticos naturais e ativos de clean beauty colocou o guaraná da Bahia no radar dos mercados dos cosméticos
A “dificuldade” citada por Agostinho é a oscilação do preço. “No começo, [o preço] era muito bom. Com o passar do tempo, foi diminuindo. Muita gente deixou de plantar guaraná, porque o valor do quilo varia. A gente fica sem saber o que fazer.”
Os produtores da região acreditam que essa variação de preço esteja diretamente ligada ao desempenho da produção no Amazonas; ou seja, quando a safra do Norte é farta, o preço do guaraná baiano despenca.
Para enfrentar esse cenário de incertezas, a saída encontrada foi a união por meio de cooperativas locais, que passaram a comprar a produção dos agricultores para estocar e comercializar de forma estratégica, ajudando a estabilizar os preços no mercado.
Para escapar da dependência do mercado tradicional, o produtor Agostinho Farias agora experimenta uma nova alternativa: a comercialização do “guaraná branco” — o fruto cozido voltado para o consumo in natura. Segundo ele, essa variedade processada artesanalmente alcança um preço um pouco melhor.

O futuro promissor do guaraná baiano
O cenário para o guaraná na Bahia é de expansão e otimismo. Com a crescente demanda mundial por produtos de origem natural, a Bahia se posiciona como um fornecedor de matéria-prima, fomentando uma economia que aproveita a biodiversidade nativa.
Com investimentos em tecnologia de irrigação e melhoramento genético, o estado tem tudo para ampliar sua margem de liderança, garantindo que o guaraná, a fruta dos olhos, continue a levar o nome da Bahia para outros continentes.
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