Juventude no campo: educação ajuda a encontrar novas oportunidades

Formação técnica rural pode incentivar a permanência dos jovens no campo e abrir caminhos para trabalho e geração de renda.

Juventude no campo: educação ajuda a encontrar novas oportunidades

A ideia de que o meio rural é sinônimo de atraso profissional ficou para trás. Para uma nova geração de jovens, permanecer no campo não significa abrir mão de oportunidades ou de independência financeira. Pelo contrário: a própria realidade rural pode se transformar em ponto de partida.

Esta opção ainda não é tendência nacional. O Brasil é um país metropolitano: segundo o Censo Demográfico de 2022, 87,4% da população vive em áreas urbanas, enquanto 12,6% está em áreas rurais.

Mesmo assim, longe dos grandes centros, existem jovens construindo outros caminhos. No campo, a educação tem ajudado a mostrar que permanecer na região de origem não significa ficar parado, e que também há espaço para inovação e empreendedorismo para juventude no campo.

Jovem produtor cria empresa após formação técnica

Aos 19 anos, Flávio dos Santos já ocupa o cargo de diretor de uma empresa. O jovem brinca com o fato de ser “o mais velho” da equipe, formada por outros quatro amigos que estudaram juntos na Casa Familiar Rural (CFR), instituição de educação profissional localizada em Presidente Tancredo Neves.

Criada durante o último ano de formação dos jovens, a AGRO Soluções presta serviços de consultoria agrícola e regularização fundiária. Perto da formatura, Flávio entendeu que ser produtor não era a única opção para ele. 

Ao lado dos colegas, percebeu que o conhecimento técnico em agronegócio, adquirido durante o ensino médio, poderia ser transformado em um serviço e, ao mesmo tempo, contribuir para melhorar a produção de outros agricultores da região.

Educação rural prepara jovens para novas oportunidades no campo

Flávio afirma que além da formação técnica, a escola também o ensinou a olhar para a própria realidade com mais atenção, além de escutar mais sobre as vivências dos colegas.

Na CFR, o mais importante para mim foram as relações humanas, porque antes do conhecimento, vem a informação. Sem pessoas você não consegue essas informações“, afirmou. 

Essa curiosidade por histórias também é incentivada por Tailã Mendes, coordenadora da Casa Familiar Rural de Igrapiúna. A educadora conhece de perto a experiência de deixar o campo. Ela fez parte do êxodo rural e, anos depois, voltou à região de origem para trabalhar com a educação de jovens.

Uma das ferramentas utilizadas nesse processo é a escrevivência. A metodologia parte das experiências dos próprios estudantes para produzir conhecimento. Em vez de deixar suas histórias fora da sala de aula, os jovens transformam experiências familiares e acontecimentos da comunidade em material de estudo.

Eu queria que eles falassem sobre as famílias, que pesquisassem com os avós e pais, para saber como e porque eles começaram a trabalhar com cacau, banana, laranja, avicultura… São alunos de 9 municípios, 64 comunidades. Muitas histórias para contar“, explicou Tailã.

O resultado desse trabalho virou livro. Ao longo dos anos, Tailã organizou publicações dos textos e relatos dos alunos. O projeto, segundo a coordenadora, começou de maneira tímida. Hoje, ultrapassa os muros da escola e permite que experiências vividas por esses jovens sejam conhecidas por outras pessoas.

Na Casa Familiar Rural, o campo também é sala de aula

Essa relação entre formação técnica e história pessoal é a base do modelo de ensino das Casas Familiares Rurais. A proposta segue a chamada pedagogia da alternância. O método combina períodos de imersão na escola com momentos de vivência junto à família e à comunidade.

O estudante não precisa se afastar da realidade em que vive para aprender, e o próprio campo passa a fazer parte do processo de formação. As experiências na propriedade, na comunidade e na escola se complementam. Assim, o jovem consegue compreender melhor os desafios e as oportunidades da própria região.

Muitos jovens querem ir embora em busca de trabalho em São Paulo, Rio de Janeiro, ou Espírito Santo. Estudando na Casa Familiar, eles recebem orientações que abrem a possibilidade de trabalharem para eles próprios e, às vezes, ganharem o mesmo salário que ganhariam em uma grande cidade” defende a coordenadora.

Permanecer no campo também é uma opção de sucesso

Uma boa formação técnica também amplia o olhar. Para os jovens que já atuam no campo, a lavoura deixa de ser a única forma de geração de renda.

Os jovens podem continuar produzindo e, ao mesmo tempo, encontrar outras formas de trabalhar a partir do conhecimento adquirido. É o que acontece, por exemplo, com Flávio e os outros quatro sócios da AGRO Soluções.

Nos dias que não estamos dando consultoria, cada um está trabalhando na sua propriedade. Nos agendamentos da empresa, a gente faz um esforço para atender as demandas da AGRO Soluções sem atrapalhar nosso trabalho com a agricultura”, explicou.

Conciliar diferentes atividades, no entanto, não significa que o caminho será só de acertos. Para Tailã, um dos desafios está na própria manutenção das Casas Familiares Rurais, instituições sem fins lucrativos que dependem de investimentos para continuar oferecendo formação aos jovens.

A educação é gratuita. Oferecemos seis refeições por dia, e quando eles vão passar os 15 dias em casa,recebem as orientações para implantação do Projetos Educativos produtivos e os insumos necessários, visitas técnicas de agrônomos… Tudo tem custo. A gente sobrevive com a ajuda dos investidores que acreditam nessa pedagogia, e cada ano precisamos de mais apoio para receber mais alunos“, revela. 

Para Flávio, além dos obstáculos comuns a qualquer empresa em fase de crescimento, existe outro desafio: conquistar espaço e credibilidade em um mercado tradicional, que nem sempre reconhece de imediato a capacidade de profissionais tão jovens.

Ambas as experiências apontam para uma mesma possibilidade: o jovem não precisa escolher entre permanecer no campo e construir uma carreira. Com conhecimento, as duas coisas podem caminhar juntas.

Oportunidades no campo: conselhos para jovens que pensam em sair

Para quem ainda está em dúvida sobre permanecer ou não no meio rural, Tailã aconselha olhar com mais atenção para as oportunidades que já existem.

Observe ao redor, veja como você pode tirar o melhor daquele lugar. Se o mercado e a farmácia são empresas, sua propriedade rural também pode ser”, resume a coordenadora.

Flávio fala a partir da própria experiência. O jovem conta que se manter no campo sempre foi o plano A, mesmo não tendo interesse inicial em seguir na agricultura. Foi a educação e a curiosidade que o fizeram ver uma nova possibilidade profissional. O jovem diretor aconselha:

Quem trabalha com o que gosta, não trabalha, está sempre em momento de lazer, sempre se divertindo. Então o conselho que eu dou é esse: se não gosta, não fica. Mas se tem alguma pulguinha atrás da orelha que ainda é agricultura, fica na agricultura porque dá certo e é prazeroso de verdade.”

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