A aparência é espinhosa, mas o potencial de exportação da mamona deixa tudo mais agradável. Tradicional no semiárido brasileiro, a planta é importante para a agricultura familiar: a Bahia é a maior produtora de mamona do Brasil.
O fruto é pequeno, mas com um grande potencial. Indústrias químicas, farmacêuticas, cosméticas e até a produção de biocombustíveis utilizam um óleo extraído das sementes. Agora, uma nova oportunidade de mercado pode ampliar ainda mais esse protagonismo.
Novo mercado para a mamona brasileira
O Governo Federal anunciou nesta semana a abertura de 13 novos mercados para produtos agropecuários brasileiros. Entre as negociações concluídas está a autorização para a exportação de sementes de mamona para o Paraguai, após a conclusão dos protocolos sanitários e fitossanitários entre os dois países.
A medida faz parte de um conjunto de acordos que envolvem parceiros comerciais de diferentes continentes. Com as novas autorizações, o agronegócio brasileiro alcança 639 aberturas de mercado em 97 destinos desde o início de 2023.
A oportunidade parece promissora para produtores de todo o Brasil. Em Canarana, no território de Irecê, o produtor rural Tiago Souza concorda. Para ele, a abertura de novos mercados pode representar mais demanda para a cultura e, consequentemente, melhores preços para quem produz.
A voz de quem vive do cultivo da mamona
Aos 25 anos, Tiago Souza já acumula uma década de experiência como produtor rural. Filho de agricultor, ele cresceu acompanhando o pai nas lavouras de mamona e começou a cultivar por conta própria ainda na adolescência. Hoje, além do trabalho no campo, compartilha sua rotina para mais de 100 mil seguidores em seu perfil no Instagram, onde busca aproximar o público urbano da realidade da agricultura familiar.

“É uma cultura que garante realmente o nosso sustento. O custo de produção não é tão alto e, em questão da venda, tem um mercado excelente”, afirma. Atualmente, Tiago cultiva cerca de sete hectares de mamona irrigada. A propriedade também produz cebola, pimentão e batata-doce, mas ele não hesita ao definir a principal atividade da fazenda: “A mamona é o foco”.
Mesmo que a maior parte das vendas seja realizada para usinas e produtores maiores da região de Irecê, o produtor vê o acordo com entusiasmo. Na avaliação dele, a abertura de um novo mercado pode ajudar a absorver parte da produção brasileira e contribuir para a valorização dos preços pagos ao produtor.
“Eu acho que é uma boa notícia. É interessante porque, se não tiver uma demanda tão grande internamente, dá para exportar, e o preço vai melhorar para o produtor. Mas precisa ter atenção para ver se quem vai estar fazendo isso vai ser só os produtores maiores, porque às vezes o pequeno produtor não vai ser tão beneficiado.” pondera.
Benefícios do acordo chegam ao pequeno produtor?
Tiago avalia que os benefícios do acordo podem acabar concentrados nos produtores de maior escala, que possuem mais facilidade para acessar compradores e canais de comercialização.
Segundo ele, as dificuldades logísticas ainda são um obstáculo para muitos agricultores familiares. Mesmo quando existem cooperativas atuando na região, fatores como distância e custos de deslocamento podem limitar o acesso dos pequenos produtores aos mercados mais vantajosos.
“Aqui mesmo, a cooperativa mais próxima deve ficar a mais de 60km. Às vezes, só o valor gasto para transportar a mercadoria até lá já abate no possível lucro”, ele analisa.
Para Tiago, ampliar o alcance das cooperativas e fortalecer políticas de apoio à comercialização seriam caminhos para democratizar os benefícios da exportação. “Se tivesse uma cooperativa ou um apoio institucional para comprar o grão do pequeno produtor que produz em área remota e distribuir, aí seria interessante“, afirma.
Oportunidade para fortalecer a agricultura familiar
Apesar dos desafios, o sentimento predominante é de otimismo. A abertura do mercado paraguaio surge como mais uma oportunidade para uma cultura que há décadas faz parte da história econômica do semiárido baiano.
Para que o potencial da medida seja plenamente aproveitado, especialistas e produtores apontam que será necessário garantir que os ganhos da exportação alcancem também os agricultores familiares. Afinal, são justamente os pequenos produtores que sustentam boa parte da produção agrícola da Bahia e mantêm viva uma cultura que continua gerando renda, emprego e desenvolvimento no interior do estado.
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