Desde a implantação de uma unidade voltada à produção e difusão de bioinsumos em Senhor do Bonfim, em 2023, mais de 2 mil pessoas já receberam produtos ou participaram de capacitações promovidas pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Entre os produtores atendidos, há relatos de redução de custos e aumento de produtividade.
É o caso da produtora Maria de Lourdes Bonfim, que afirma economizar cerca de R$ 500 por ano com o uso de bioinseticida à base de neem, também conhecido como amargosa.
“Eu cultivo café, minha plantação é pequena e lido com pulgões, bicho-mineiro, ferrugem… Com o uso do bioinseticida, a produção aumentou, porque a planta está sadia agora”, afirmou.
O centro de produção local gera biofertilizantes, bioinseticidas, aceleradores de compostagem e realiza a multiplicação de agentes utilizados no controle de fungos e nematoides, conforme a demanda regional. A Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar distribui esses insumos para os produtores atendidos e também os utiliza em demonstrações práticas e capacitações.
Segundo Gustavo Maciel, gerente do Centro de Capacitação Regional em Senhor do Bonfim, a iniciativa tem ampliado o acesso dos produtores a alternativas de manejo produzidas com matérias-primas disponíveis na própria região.

Produtor relata aumento de 90% na produção
O produtor Cícero Miranda, de Serra dos Morgados, também passou a utilizar novos insumos e práticas de manejo para lidar com o clima semiárido da Caatinga e com a incidência de pragas em sua plantação de café.
Segundo ele, após a adoção dos insumos biológicos, houve aumento expressivo na produção.
“Depois do uso da calda bordalesa, do extrato de neem e do acelerador de compostagem na minha propriedade, a gente identificou um aumento de 90% na produção”, contou.
A iniciativa prioriza o uso de matérias-primas locais e acessíveis, como a amargosa, abundante na região. De acordo com a geóloga Viviane Oliveira, pesquisadora da área, o aproveitamento desses recursos permite trabalhar de forma mais integrada à dinâmica natural do solo e das plantas.

“O bioinsumo natural preserva todos os serviços ecossistêmicos, nos quais a gente consegue encontrar de fato o que precisa para poder entregar para a nossa rizosfera. Esses mecanismos da natureza têm nutrientes eficientes para o crescimento e desenvolvimento saudável das plantas”, explicou.
O que são bioinsumos
Em um cenário de aumento da demanda por soluções agrícolas sustentáveis e de alta produtividade, os bioinsumos ganham cada vez mais espaço no campo.
De acordo com a Lei 15.070, sancionada em 2024, bioinsumos são produtos, processos ou tecnologias de origem vegetal, animal ou microbiana utilizados na produção agropecuária. Eles podem ter como base microrganismos, extratos vegetais e outros componentes de origem biológica.
Esses materiais podem atuar no crescimento das plantas, na fertilidade e atividade biológica do solo e no controle de pragas e doenças. Seguindo a legislação, a categoria de bioinsumos abrange diferentes classificações, incluindo biofertilizantes, bioinseticidas, bioinoculantes e condicionadores biológicos de solo.
Entre os produtos utilizados no cotidiano das propriedades estão:
- Biofertilizantes: atuam na nutrição e vitalidade das plantas e podem ser formulados a partir de materiais de origem vegetal, animal ou microbiana. Dependendo da composição, contribuem para a disponibilidade de nutrientes e para a atividade biológica do solo.
- Bioinseticidas: cumprem papel no manejo sanitário das lavouras e podem ter extratos botânicos ou microrganismos específicos como base. Esses produtos atuam no controle de pragas e podem integrar estratégias de manejo com menor impacto sobre organismos não alvo.
Bioinsumos como alternativa no campo
Com a atual crise mundial envolvendo fertilizantes fosfatados, os bioinsumos ganharam ainda mais espaço em discussões sobre redução de custos e dependência de insumos externos.
A proposta de iniciativas como a adotada em Senhor do Bonfim é aproveitar materiais disponíveis localmente. Além disso, as propostas visam reduzir parte dos custos de produção e ampliar o conhecimento sobre novas práticas de manejo.
Viviane destaca que extratos vegetais, como o produzido a partir do neem, possuem compostos naturais que podem ser utilizados no controle de pragas. Segundo ela, esses produtos podem apresentar vantagens em determinados sistemas de produção quando utilizados de forma adequada e com orientação técnica.
Bioinsumos na Caatinga
As condições da Caatinga também interferem diretamente na forma como essas práticas são aplicadas. Apesar do clima seco e da baixa incidência de chuvas, alguns solos do bioma apresentam boa disponibilidade natural de nutrientes.

Viviane explica que, em determinadas áreas, as características minerais do solo ajudam a preservar nutrientes, embora a disponibilidade de água continue sendo um dos principais fatores limitantes para a produção.
“Quando chove, o solo termina explodindo de fertilidade, porque as argilas ainda não se desgastaram ao ponto de não ter mais capacidade de reatividade para poder fomentar uma fertilidade agronômica. O que falta de fato na Caatinga é água”, explicou Viviane.
Apesar dos avanços, o principal desafio apontado por Gustavo Maciel é a quebra de resistência de produtores habituados ao manejo tradicional. A transição para os bioinsumos precisa de orientação profissional, garantindo aplicação correta e resultados consistentes no médio e longo prazo.
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