Nem só do mar vem o peixe: piscicultura avança no litoral da Bahia

No Conde, projeto aposta em assistência técnica, produção de juvenis e gastronomia para fortalecer uma nova cadeia produtiva.

Nem só do mar vem o peixe: piscicultura avança no litoral da Bahia

Em um estado conhecido pelos mais de mil quilômetros de litoral, o mar é a primeira referência quando se pensa na produção de peixes. Mas, longe das embarcações e das redes lançadas no oceano, a piscicultura na Bahia vem encontrando espaço.

A criação de peixes em cativeiro ainda representa uma parcela pequena da atividade econômica em comunidades litorâneas, mas experiências recentes mostram que há espaço para desenvolver a cadeia e criar novas alternativas de renda. No Conde, no Litoral Norte do estado, famílias estão sendo capacitadas para transformar a criação de tilápias em uma atividade comercial mais estruturada.

Bahia já está entre os maiores produtores de peixe de cultivo do país

A atividade, apesar de tímida no litoral, está longe de ser novidade na Bahia. O estado ocupa a 9ª posição entre os maiores produtores brasileiros de peixes de cultivo.

A distribuição da produção revela uma característica importante: os grandes centros da piscicultura baiana estão associados principalmente a ambientes de água doce. Municípios como Glória, no norte do estado, ganharam destaque pela criação de tilápia.

A riqueza da piscicultura está na oportunidade de explorar uma nova atividade lucrativa, mesmo em uma região onde o pescado tradicionalmente vem do mar. No entanto, transformar esse potencial em atividade econômica depende de conhecimento técnico.

No litoral, capacitação transforma criação de peixes em oportunidade

Para o engenheiro de pesca Rafael Bezerra, que atua na capacitação de piscicultores por meio de um projeto desenvolvido em parceria entre a Ferbasa e o Instituto Agropecuário da Bahia (IAGRO), a piscicultura ainda não tem grande impacto econômico em algumas comunidades litorâneas porque sua transformação em atividade comercial é relativamente recente.

A sua experiência, porém, comprova como a assistência técnica pode mudar esse cenário. No início do projeto iniciado no Conde, a produção de tilápia na comunidade era de cerca de 503 peixes. Com o acompanhamento, chegou a aproximadamente 5 mil animais.

Para Rafael, um dos diferenciais está em não limitar a capacitação à criação do peixe. O trabalho acompanha a cadeia produtiva desde a produção de ração e a criação dos animais até o beneficiamento, o abate e o aproveitamento de subprodutos e rejeitos.

Produção de juvenis cria nova oportunidade para produtores

Uma das estratégias desenvolvidas está na produção dos peixes jovens. O ciclo começa com as larvas, que posteriormente se transformam em alevinos e, depois, em juvenis. Nesse processo, ocorre uma seleção natural: parte dos animais não sobrevive, enquanto os mais resistentes e de maior peso avançam para a etapa seguinte.

Na comunidade do Vermelho, no Conde, a proposta é transformar esse processo em oportunidade comercial. Em vez de criar os peixes até o tamanho de abate, os produtores podem atuar como uma espécie de “celeiro” de juvenis, vendendo os animais já preparados para o povoamento de tanques de outros piscicultores.

Muitas pessoas perdem animais pela falta de manejo e de conhecimento. A piscicultura tem duas fases críticas: o começo, que é fazer o animal vingar, e o final, quando ele já está maior, aumenta a densidade por área do tanque, e é preciso manejar bem os recursos.”

A especialização em uma etapa do ciclo também pode reduzir o tempo de permanência do peixe nos tanques. Segundo Rafael, a produção de juvenis permite antecipar a comercialização dos animais e, consequentemente, aumentar a rotatividade.

Foto: Acervo pessoal | Rafael Bezerra

O peixe é bom. A produção de juvenil tem encurtado em quatro meses o tempo do animal no tanque, o que é bom, porque é sinal de aumento de rotatividade do produto”, explica o engenheiro.

Concurso buscou aproximar a tilápia do consumidor

A aposta na piscicultura também passa por criar demanda para o peixe. Foi com esse objetivo que Rafael participou da organização da primeira edição de um concurso culinário de tilápia promovido pela Ferbasa, IAGRO e Prefeitura de Conde, por meio da Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Pesca (SEMAPP). A competição convidou restaurantes e barracas de praia do município e região a desenvolver pratos com o pescado e distribuiu R$ 2.300 entre os três primeiros colocados.

A disputa não ficou restrita aos produtores que participavam da capacitação. A intenção era levar a tilápia para além dos tanques e fazê-la chegar às mesas, despertando o interesse de comerciantes e consumidores.

Imagem: Acervo Pessoal | Rafael Bezerra

Foi aberto ao público porque o foco era expor a tilápia e gerar desejo pelo produto. Queríamos chamar atenção para as vendas da tilápia, e conseguimos.”, conta Rafael.

Para ele o resultado da competição mostrou que não é preciso elaborar receitas sofisticadas para valorizar o pescado. A preparação vencedora foi simples: tilápia em postas marinada, empanada na farinha de mandioca e acompanhada de farofa.

A simplicidade, segundo ele, reforça justamente o potencial do produto. A tilápia é hoje o peixe mais consumido pelos brasileiros e, quando produzida com qualidade, pode encontrar espaço tanto na alimentação cotidiana quanto na gastronomia local.

Mais do que uma competição gastronômica, a iniciativa ajudou a completar uma etapa importante da cadeia. A inteção foi reforçar que produzir é apenas uma parte do desafio, e é preciso também fazer o pescado chegar ao consumidor e criar mercado para ele. Ao levar a tilápia para restaurantes e barracas de praia, o projeto buscou mostrar que, em uma região acostumada a consumir o pescado vindo do mar, também existe espaço para o peixe criado localmente.

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