Conflitos territoriais e ataques de onças ameaçam produtores no Boqueirão da Onça

Criadores de Sento Sé (BA) denunciam ações do ICMBio, falta de indenizações e prejuízos com predadores após criação de Parque Nacional e APA

Imagem do Parque Nacional do Boqueirão da Onça em Sento Sé/BA

Criadores rurais do município de Sento Sé, no norte da Bahia, enfrentam diversos desafios para manterem suas atividades na região. As dificuldades começaram em 2018, após a instituição do Parque Nacional Boqueirão da Onça e da Área de Proteção Ambiental (APA) de mesmo nome. De severas restrições produtivas a prejuízos causados pelo ataque de predadores nativos, centenas de famílias relatam a inviabilização das suas atividades tradicionais.

Sem indenizações ou planos de realocação por parte do governo federal, os produtores que já viviam na área antes da delimitação do Parque denunciam a arbitrariedade dos órgãos ambientais. De acordo com residentes da região, unidades do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) estariam destruindo construções dentro das propriedades sem ao menos notificá-los.

“Estão agindo com arbitrariedade, derrubaram até uma igreja. Eles entram, derrubam a porteira dos produtores e invadem as casas. Sempre tem alguém encapuzado. E se, por exemplo, tiver um fogo agora, eles baixam lá na hora. Ninguém pode fazer mais nada. Você não pode nem limpar uma área para fazer uma casa”, afirmou Ed Carlos Reis, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Sento Sé.

Restrição ao crédito rural

Além das ações dos órgãos ambientais, os produtores do Boqueirão da Onça ainda precisam lidar com as restrições ao crédito rural. A legislação considera ilegal a propriedade de terras em parques de conservação; logo, não os produtores não possuem acesso a linhas convencionais de crédito.

“Tem comunidade que a gente pretende tirar do parque, porque o pessoal não pode produzir, o banco não financia quem tá lá dentro da região”, explicou o presidente do sindicato.

O assessor ambiental da Federação de Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb), Rômulo Alexandrino, alerta que as medidas não seguem o rito padrão. “Para o parque entrar em plenitude, é necessário o levantamento das famílias residentes e a indenização delas. Enquanto não forem indenizadas, elas continuam tendo direito de habitar e produzir no local”, explicou o engenheiro agrícola e ambiental. Na prática, o governo instituiu o parque do Boqueirão da Onça, mas ainda está em processo de regularização das indenizações.

Ataques a produção

Com o avanço das diretrizes de preservação, a criação de ovinos e caprinos (principal base econômica das comunidades locais) sofreu uma forte retração. De acordo com os relatos dos moradores da APA, propriedades vizinhas e assentamentos criados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) viram os seus rebanhos reduzirem significativamente em decorrência da predação por onças.

Onça avistada nas proximidades de propriedades no Boqueirão da Onça
Crédito: Arquivo pessoal

O parque foi criado com o intuito de servir de santuário para as onças-pintadas e pardas da região. Mas, após oito anos, os incidentes com os animais aumentaram. Devido à redução da presença humana, o meio ambiente ficou mais isolado, facilitando a reprodução e o alastramento das onças na área de preservação.

“Do jeito que está, não há segurança: o produtor e o vaqueiro ficam expostos à onça na serra”, afirmou Osmário Ribeiro, que reside na região há 50 anos. “Assentamentos que tinham mais de 2.000 cabeças de bode hoje não têm nenhuma, pois tiveram que vender o que a onça não comeu”, explicou o produtor.

Animal abatido por onça em propriedade rural da região de Boqueirão da Onça
Crédito: Arquivo pessoal

Além dos predadores naturais, os pecuaristas de Sento Sé precisam lidar também com matilhas de cães errantes que dominam a zona rural do município. Segundo um levantamento feito pelo sindicato rural, o número de animais mortos pelos cachorros selvagens chegou a 2.700 em 2025.

O avanço dos ataques e a pressão dos órgãos ambientais desestimularam a produção na caatinga alta, deixando os criadores sem alternativas viáveis de subsistência econômica.

Medidas cabíveis e revisão do plano de manejo 

Segundo Alexandrino, os produtores prejudicados podem recorrer a medidas judiciais específicas para contestar a atual configuração territorial da reserva. A legislação brasileira permite que as dimensões de um parque sejam alteradas por meio de ações civis públicas ou pela revisão do plano de manejo das unidades de conservação.

O engenheiro avalia a reavaliação dos limites geográficos como alternativa viável para readequar o perímetro de proteção. Essa medida foca prioritariamente nas famílias que residem nas bordas da reserva, visando retirá-las do domínio restrito do parque para que possam retomar legalmente a produção agropecuária.

A Agência iAgro Notícias entrou em contato com o ICMBio, mas, até o fechamento desta matéria, não obteve resposta.

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