A trajetória da cacauicultura baiana começou em 1746, em Canavieiras, com sementes trazidas do Pará. O fruto, antes restrito à Amazônia, encontrou no sul da Bahia as condições climáticas ideais para prosperar. Com clima quente e úmido, a região consolidou o sistema de “cabruca”. Nesse modelo agroflorestal, a plantação é cultivada sob a sombra da mata nativa. A técnica permitiu que a Bahia se tornasse a maior produtora de cacau do país.
A partir de 1860, o estado passou a suprir a demanda de fábricas de chocolate na Europa e nos Estados Unidos. Já no século 20, o Brasil atingiu o segundo lugar no ranking mundial de produtores. O país era responsável por 6% de toda a exportação global do fruto.
Vassoura-de-bruxa: o impacto da crise biológica na economia baiana
A hegemonia de 200 anos do cacau baiano foi interrompida em 1989 pela chegada da vassoura-de-bruxa. O fungo Moniliophthora perniciosa, originário da Amazônia, ataca os frutos, brotos e flores do cacaueiro. A doença causa deformações nos ramos e o apodrecimento das amêndoas, inviabilizando a colheita.

Segundo o agrônomo Xico Graziano, a praga devastou 75% das plantações do estado. O impacto na produção foi drástico: a Bahia, que colheu 400 mil toneladas na safra 1984/1985, passou a produzir volumes insuficientes para o consumo interno. Com isso, o Brasil perdeu o posto de segundo maior exportador mundial e tornou-se importador do fruto.
A crise biológica também gerou graves reflexos sociais e demográficos no Sul da Bahia. Em apenas cinco anos, a infestação provocou a demissão de 200 mil trabalhadores rurais. O cenário desencadeou um êxodo rural de aproximadamente 800 mil pessoas para as zonas urbanas. Estima-se que o prejuízo financeiro acumulado ao longo das décadas se aproxime de US$ 10 bilhões.
Agroterrorismo e a investigação sobre a origem da praga na Bahia
Quase 20 anos após o início da crise, um depoimento trouxe uma reviravolta ao caso da vassoura-de-bruxa. Uma denúncia de Luiz Henrique Franco Timóteo, antigo opositor ao coronelismo regional, levou a Polícia Federal a investigar suspeitas de agroterrorismo. Segundo o denunciante, a introdução do fungo nas lavouras baianas teria sido um atentado planejado.
Timóteo afirmou ter participado de uma reunião em Itabuna, em 1987, onde militantes políticos planejaram a disseminação da praga. O objetivo seria enfraquecer os grandes produtores que dominavam o cenário político da época. O grupo teria financiado viagens de Timóteo a Rondônia para coletar ramos infectados, que eram amarrados aos cacaueiros saudáveis na Bahia.

De acordo com o depoimento, o vento se encarregava de espalhar os esporos para o restante das plantações e propriedades vizinhas. Esse mecanismo explicaria a rapidez da contaminação em diferentes cidades do Sul baiano. As afirmações geraram forte pressão política e levaram o Senado a pedir a atuação do Ministério Público por crimes contra a segurança nacional.
Logo depois, a Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a suposta “sabotagem biológica”. O caso é tratado em nosso protocolo editorial como um tema de alta sensibilidade, exigindo rigor factual e transparência.
Investigados negam envolvimento e crime prescreve
Durante as apurações, constatou-se que os nomes citados por Timóteo integravam a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac). O órgão é vinculado ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Em depoimentos à Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) e à Polícia Federal, os gestores da época negaram participação na sabotagem.
Entre os investigados estavam o ex-superintendente Wellington Duarte e o ex-coordenador-geral Everaldo Anunciação. Eles negaram qualquer envolvimento na trama que gerou a crise no setor agropecuário baiano. O ex-prefeito de Itabuna, Geraldo Simões, também foi alvo das acusações. Em sua defesa, Simões afirmou desconhecer o denunciante. Ele alegou que as afirmações tinham o objetivo de prejudicar candidaturas políticas de seu partido.

Apesar da repercussão nacional, as investigações não resultaram em condenações efetivas. O inquérito e a CPI foram encerrados devido à prescrição do crime, já que a denúncia foi apresentada apenas 18 anos após o início dos fatos narrados.
Retomada da cacauicultura: tecnologia e novos recordes na Bahia
Após 37 anos, a cacauicultura baiana demonstra resiliência e supera os reflexos históricos da vassoura-de-bruxa. O setor, que alcançou o ápice de 400 mil toneladas na década de 1980, registrou um novo marco na safra de 2019, com 209 mil toneladas produzidas. Este desempenho recolocou o Brasil na lista de maiores exportadores mundiais, ocupando atualmente o sexto lugar.
No cenário nacional, a Bahia disputa a liderança da produção com o Pará. O estado ganhou destaque na última década e chegou a assumir o posto de maior produtor em 2017. No entanto, a produção baiana retomou a dianteira já no ano seguinte, reforçando o protagonismo do setor no estado.
A virada tecnológica foi o motor dessa recuperação. A implementação de novos Sistemas Agroflorestais (SAFs) — como a integração entre cacau e seringueira — e o cultivo a pleno sol transformaram a realidade no campo. De acordo com o agrônomo Xico Graziano, esses modelos elevaram a produtividade em até seis vezes quando comparados ao sistema tradicional de cabruca.

Desafios e o novo perfil da cacauicultura baiana
Apesar da recuperação produtiva, os agricultores da região cacaueira ainda enfrentam marcas profundas da crise de 1989. O cenário atual é definido por mudanças estruturais no perfil do produtor, entraves financeiros e a busca por segurança biológica:
- Fim do “coronelismo” e foco na agricultura familiar: O perfil fundiário da região mudou drasticamente. Segundo Xico Graziano, 96,5% dos produtores que participam dos planos de recuperação são de pequeno ou médio porte. Atualmente, as propriedades se enquadram majoritariamente na agricultura familiar, substituindo o modelo de grandes latifundiários;
- Endividamento histórico: Muitos produtores que permaneceram na atividade ainda arcam com dívidas de programas de recuperação que falharam na década de 1990. Há propriedades que enfrentam hipotecas há 30 anos, o que limita a capacidade de novos investimentos e a saúde financeira das famílias;
- Diversidade genética e investimento: Estudos comprovam que a falta de variedade genética facilitou o avanço da vassoura-de-bruxa. Para evitar novos surtos, os produtores agora investem em mudas mais resistentes e técnicas de manejo diversificadas. Esse processo exige maior aporte de capital e capacitação técnica contínua.
Conversas da Comunidade
0 comentários