“Estou pensando em ir para o Paraguai e trazer vacinas de lá, porque a situação é gravíssima”. Para o pecuarista A.B., a falta de vacinas contra clostridioses na Bahia causa tanto desespero que contornar as leis de importação vira opção.
Entre os dez mil animais vivendo na propriedade que gerencia com a família em Eunápolis, no extremo sul, o produtor estima que metade sejam bezerros, que no primeiro ano de vida devem ser vacinados duas vezes — ao nascer e com um mês de vida, como reforço. A escassez já prejudica o calendário vacinal desde o fim do ano passado: bezerros nascidos em dezembro ainda não receberam nenhuma dose.
Clostridioses: o que são e como agem
São uma classe de doenças causadas pela bactéria Clostridium, e que acometem principalmente bovinos, ovinos e caprinos. Os esporos podem viver no solo durante anos, e a contaminação ocorre pelo contato com ferimentos ou consumo de pasto infectado.
As clostridioses mais comuns são:
- Botulismo: Intoxicação que age no cérebro e causa paralisia dos músculos. Normalmente inicia nos membros posteriores e pode chegar até o sistema respiratório, resultando em morte por parada cardiorespiratória.
- Enterotoxemia: Infecção intestinal que causa diarréia aguda, desidratação, e dor abdominal intensa. A dilatação do intestino e a hemorragia são as principais causas de morte.
- Carbúnculo: Conhecida como “manqueira”, um dos sintomas mais comuns é o inchaço dos membros, que dificulta a locomoção dos animais. Além disso, também podem apresentar sangramento espumoso escuro pelos orifícios.

Apesar de tratáveis, essas doenças evoluem rapidamente, o que aumenta o grau de mortalidade. Não é incomum que em propriedades grandes a infecção só seja constatada após a morte de um animal.
Para o produtor, a prevenção é a melhor saída. Apesar de não serem obrigatórias por lei, as vacinas contra clostridioses são indicadas para evitar crises sanitárias e prejuízos financeiros. Ao ser questionado sobre quais alternativas têm aplicado enquanto não consegue acesso aos imunizantes, A.B. não escondeu a verdade:
“Nada, não tem o que fazer. São muitas cabeças, não há como monitorarmos individualmente. Estamos presos.”
Por que faltam vacinas contra clostridioses no Brasil?
A instabilidade começou a ser desenhada no final de 2025, quando o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) determinou a suspensão cautelar da fabricação e comercialização da vacina Excell 10, após uma série de relatos de mortes de animais em diversos estados.
A investigação sobre possíveis problemas na composição do imunizante retirou de circulação um volume significativo de doses, gerando um vácuo no mercado que os demais laboratórios ainda não conseguiram suprir. Esse desfalque no estoque nacional, somado aos rigorosos protocolos de reavaliação de lotes, criou o cenário de escassez que hoje aflige o pecuarista baiano.
Insegurança: os riscos para a saúde e o bolso
Embora a maioria das clostridioses animais não seja transmitida diretamente para humanos, a falta de imunização dos rebanhos afeta a segurança alimentar do consumidor. Sem vacinas e diante da morte súbita de animais, produtores menos rigorosos podem tentar comercializar a carne de forma irregular para reduzir o prejuízo. Consumir carne sem inspeção sanitária expõe a população a toxinas perigosas, como as que causam o botulismo.
Além disso, a pecuária é um dos pilares da economia brasileira, e qualquer oscilação no campo reflete em números expressivos. Alguns impasses comerciais que podem surgir no caminho são:
- Desabastecimento e aumento de preços: a perda repentina de um grande número de animais por clostridioses reduz a oferta de carne e leite no mercado, o que tende a elevar os preços para o consumidor final.
- Prejuízo à exportação: crises sanitárias podem gerar barreiras comerciais para o Brasil, prejudicando a balança comercial e a imagem do produto brasileiro no exterior.
- Prejuízo aos produtores rurais: criar animais até a fase de abate ou produção leiteira tem um custo alto, e perdê-los significa que os investimentos não retornarão, o que pode gerar dívidas altas para os produtores.
“Nem 30 dias a gente aguenta. Já estão morrendo animais. Diariamente morre um, dois, três… Imagina em um mês?”
Medidas emergenciais: quais são as respostas até o momento?
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (FAEB) solicitou a intervenção urgente do Mapa no início da semana. Em documento oficial, a federação alerta que os produtores baianos intensificaram o manejo e o monitoramento, mas estão sobrecarregados diante do risco iminente de uma crise sanitária.
Em nota, o Mapa afirma que vem atuando com a indústria de insumos veterinários para impulsionar a fabricação e importação das vacinas. Além disso, a pasta também estimou que até dezembro serão distribuídas entre 8 e 10 milhões de doses de imunizantes por mês, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan).
Somando forças à mobilização do setor, a Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB) também acionou o Mapa para tratar da urgência no abastecimento. A agência reconhece o impacto econômico e sanitário da escassez e manifestou disponibilidade para oferecer suporte técnico e logístico aos produtores.
O alerta para a população não é de pânico, mas de vigilância. Enquanto o déficit de vacinas persiste, o setor produtivo deve se articular com órgãos de defesa do produtor e instituições governamentais para buscar por alternativas, visando diminuir os prejuízos no campo e evitar que o desequilíbrio chegue ao mercado e ao bolso do consumidor.
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